A resposta mais honesta é: depende da idade, da frequência, do tempo de uso e do contexto do bebê. A chupeta não é uma “vilã” por si só, mas também não deve ser usada sem critério.
Do ponto de vista médico, ela se encaixa no que chamamos de sucção não nutritiva: o bebê suga não para se alimentar, mas para se acalmar, organizar o sono e regular emoções. Esse reflexo é natural nos primeiros meses de vida.
O problema costuma aparecer quando a chupeta deixa de ser um recurso pontual e passa a ocupar grande parte do dia, interferindo na amamentação, na respiração, no desenvolvimento oral, na audição ou na comunicação.
A chupeta pode ter algum benefício real?
Sim. O principal benefício reconhecido em diretrizes internacionais é a associação entre o uso da chupeta no início do sono e a redução do risco de síndrome da morte súbita do lactente — SIDS, em inglês, ou SMSL em português.
A American Academy of Pediatrics orienta oferecer chupeta na hora das sonecas e ao dormir, dentro de um ambiente seguro de sono. Se a chupeta cair depois que o bebê adormecer, não é necessário recolocá-la. Também não se deve prender a chupeta em roupas, mantas ou bichos de pelúcia durante o sono, pelo risco de sufocação ou estrangulamento.
Esse benefício não significa que todo bebê precise usar chupeta. Significa apenas que, quando usada corretamente, ela pode fazer parte de uma rotina segura de sono.
Quando a chupeta pode atrapalhar a amamentação?
A maior atenção deve acontecer nas primeiras semanas. Na amamentação, o bebê precisa coordenar pega, língua, mandíbula, respiração e deglutição. A sucção no peito é diferente da sucção na chupeta.
Por isso, o CDC recomenda que, em bebês amamentados, a chupeta seja introduzida preferencialmente depois que a amamentação estiver bem estabelecida. Depois disso, o uso em sonecas e à noite pode ajudar na redução do risco de SIDS.
Como saber se a amamentação está “bem estabelecida”?
Em geral, isso significa que o bebê mama com boa pega, ganha peso adequadamente, molha fraldas com frequência e a mãe não sente dor persistente ao amamentar.
Se o bebê está com dificuldade para pegar o peito, dorme rapidamente sem mamar bem ou usa a chupeta para “segurar” a fome, é melhor avaliar com pediatra ou consultora de amamentação.
A chupeta não deve substituir o peito quando o bebê está com fome. Ela pode acalmar, mas não alimenta.
A chupeta pode prejudicar os dentes e a mordida?
Pode, especialmente quando o uso é intenso, prolongado ou continua após a fase em que a criança já deveria estar reduzindo esse hábito.
A literatura odontológica associa o uso prolongado de chupeta a alterações como mordida aberta anterior, quando os dentes da frente não se encostam, e mordida cruzada posterior, quando há alteração na relação entre os arcos dentários. Uma revisão sistemática encontrou evidência moderada de associação entre chupeta e essas mudanças nas estruturas orofaciais.
O mecanismo é relativamente simples: a chupeta exerce pressão sobre língua, palato, dentes e musculatura perioral. Quando essa pressão acontece muitas horas por dia, durante meses ou anos, ela pode influenciar o crescimento da arcada dentária.
A chupeta ortodôntica evita esse problema?
Não completamente. Alguns modelos podem ser menos agressivos do que outros, mas a palavra “ortodôntica” não torna o uso livre de risco.
Uma revisão comparando chupetas ortodônticas e convencionais não encontrou proteção absoluta contra alterações oclusais. O fator mais importante continua sendo tempo, frequência e idade de interrupção do hábito.
A chupeta pode aumentar o risco de otite?
Pode estar associada a maior risco de otite média aguda, uma infecção no ouvido médio comum em bebês e crianças pequenas.
A explicação envolve a tuba auditiva, canal que liga o ouvido médio à parte de trás do nariz e da garganta. Em crianças pequenas, essa estrutura é mais curta e horizontal, favorecendo acúmulo de secreção. A sucção frequente pode alterar pressões nessa região e contribuir para episódios de otite em crianças predispostas.
O MedlinePlus, da National Library of Medicine/NIH, lista o uso de chupeta entre fatores de risco para otite e inclui “evitar chupetas” entre medidas preventivas em crianças com tendência a infecções de ouvido.
Isso não significa que toda criança que usa chupeta terá otite. Mas, se o bebê apresenta otites repetidas, o uso deve ser discutido com o pediatra.
A chupeta pode interferir na fala e na respiração?
Indiretamente, sim. O uso constante durante o dia pode reduzir momentos de balbucio, exploração oral, imitação de sons e interação verbal. O bebê precisa de boca livre para experimentar movimentos de lábios, língua e mandíbula.
Também vale observar a respiração. Se a criança mantém a boca aberta o tempo todo, ronca, baba excessivamente, tem obstrução nasal frequente ou parece depender da chupeta para dormir, pode haver questões respiratórias, alérgicas ou anatômicas que merecem avaliação.
A chupeta não deve “tampar” sinais do corpo. Ela acalma, mas não trata refluxo, cólica intensa, obstrução nasal, dor de ouvido ou dificuldade alimentar.
Qual é a forma mais segura de usar chupeta?
O uso mais equilibrado é aquele com finalidade clara: acalmar em momentos específicos e ajudar no início do sono.
A chupeta deve ser do tamanho adequado para a idade, estar inteira, limpa e sem partes soltas. Não deve ser mergulhada em açúcar, mel ou outros alimentos. Mel, inclusive, não é indicado para menores de 1 ano pelo risco de botulismo infantil.
Evite prender a chupeta em cordões durante o sono. Também não use bico de mamadeira como chupeta, porque ele pode se soltar e causar engasgo.
Quando começar a reduzir o uso?
Uma estratégia sensata é reduzir gradualmente após o primeiro ano, mantendo inicialmente apenas para dormir, se necessário.
Do ponto de vista odontológico, quanto mais cedo a criança abandona o hábito, menor tende a ser o risco de alterações persistentes na mordida. Muitos problemas leves podem melhorar após a interrupção, especialmente se ela ocorre cedo.
Se a criança usa chupeta o dia todo, acorda várias vezes para procurá-la, fala com a chupeta na boca ou já apresenta alteração na mordida, vale planejar a retirada com calma, sem punições.
Então, dar chupeta ao bebê pode prejudicar?
Pode prejudicar quando usada cedo demais em bebês com amamentação ainda instável, quando permanece por muitas horas ao dia, quando se prolonga por anos ou quando existe histórico de otites, alterações de mordida, respiração oral ou atraso na comunicação.
Mas também pode ser útil quando usada com critério, especialmente no sono, respeitando segurança, higiene e o desenvolvimento do bebê.
Conclusão: como decidir com tranquilidade?
A chupeta deve ser vista como uma ferramenta, não como solução automática para todo choro. O bebê chora por fome, sono, colo, desconforto, dor, excesso de estímulo e necessidade de vínculo.
Usar chupeta com consciência é observar o bebê inteiro: como mama, como dorme, como respira, como se comunica e como cresce. O mais importante não é demonizar nem idealizar a chupeta, mas entender quando ela ajuda e quando começa a ocupar espaço demais no desenvolvimento da criança.
Referências internacionais
American Academy of Pediatrics / HealthyChildren — Safe Sleep: pacifier use and SIDS prevention.
CDC — Pacifiers and breastfeeding considerations.
NIH / MedlinePlus — Acute ear infection and pacifier use as risk factor.
PubMed — Pacifier sucking and orofacial structures: systematic review.
PubMed — Orthodontic versus conventional pacifier and malocclusion.
AASM — Infant sleep environment health advisory
















